Pode usar primeira pessoa na redação do ENEM?

1159 palavras · atualizado em 14 de setembro de 2026 · SOS Concursos

A dúvida aparece em toda turma de redação: posso escrever "eu acho" no ENEM? A resposta curta é que não existe proibição formal, mas as duas primeiras pessoas se comportam de formas muito diferentes na correção, e uma delas quase sempre trabalha contra você.

A resposta em uma linha

Primeira pessoa do plural funciona e é usada em redações nota 1000. Primeira pessoa do singular é desaconselhada. Terceira pessoa é o registro padrão e o mais seguro.

O que a grade realmente exige

A competência 1 avalia o domínio da modalidade escrita formal da língua portuguesa. Ela não lista pessoas verbais permitidas nem proibidas. Não há, em lugar algum, regra dizendo que primeira pessoa zera ou desconta pontos.

O que existe é uma exigência de registro formal. E o registro formal em português brasileiro tende à impessoalidade quando se argumenta sobre questões públicas. Não por regra gramatical, mas por convenção de gênero: texto dissertativo-argumentativo escolar e acadêmico se escreve assim.

Por isso a primeira pessoa não é um erro de gramática. É uma escolha de registro que pode soar deslocada, e soar deslocada custa ponto na competência 1 pela via da adequação, não da correção.

Primeira pessoa do singular

"Eu acho", "na minha opinião", "penso que". Três construções que enfraquecem o texto por um motivo que não tem nada a ver com gramática.

Quando você escreve "eu acho que a fiscalização é insuficiente", a afirmação vira relato de uma impressão pessoal. Ela passa a valer o que vale a sua opinião individual, que para o corretor é zero — ele não sabe quem você é.

Quando você escreve "a fiscalização é insuficiente", a afirmação se apresenta como proposição a ser sustentada, e os próximos períodos existem para prová-la. É a mesma ideia com força argumentativa completamente diferente.

Todo texto dissertativo já é a opinião de quem escreve. Anunciar isso com "eu acho" não acrescenta informação e ainda avisa ao leitor que ele pode discordar sem custo.

Há ainda o caso do relato pessoal: "quando eu estudava na escola pública, via que...". Experiência individual não é repertório sociocultural legitimado, e um parágrafo construído sobre ela costuma pontuar mal na competência 2.

Registro é só uma parte da competência 1, e a competência 1 é só uma das cinco. O teste mostra em qual delas você está perdendo mais ponto, em 15 questões.

Descobrir meu ponto fraco

Primeira pessoa do plural

"Vivemos", "precisamos", "nossa sociedade". Aqui a história é outra.

O plural cria uma coletividade que inclui autor e leitor, e isso é aceito no registro formal brasileiro. Aparece em texto acadêmico, em editorial de jornal e em redações de nota máxima. Usado com moderação, dá senso de urgência compartilhada sem soar pessoal.

Duas ressalvas. A primeira é a dose: um texto inteiro em primeira pessoa do plural fica pregando em vez de argumentando. Duas ou três ocorrências, bem colocadas, bastam. A segunda é a coerência: se você começou em terceira pessoa, não pule para o plural no meio sem motivo, porque oscilação de registro é justamente o que a competência 1 pune.

Terceira pessoa e impessoalidade

É o registro padrão do texto dissertativo-argumentativo e o que exige menos decisões durante a escrita. Alguns recursos que sustentam a impessoalidade sem deixar o texto travado:

Cuidado com o excesso do "se". Um parágrafo com "constata-se", "percebe-se" e "nota-se" em três frases seguidas fica mecânico e ainda expõe o candidato a erros de concordância na voz passiva sintética.

Como defender um ponto de vista sem dizer "eu acho"

É a pergunta que está por trás da dúvida original. Muita gente usa primeira pessoa porque acredita que sem ela o texto fica neutro e sem posicionamento. Não fica.

O posicionamento aparece nas escolhas, não no pronome. Compare:

A segunda é mais assertiva, não menos. Ela afirma em vez de relatar uma crença, e é exatamente esse tom que a competência 3 chama de autoria.

Marcas de autoria que não dependem de pronome

Autoria, na grade do ENEM, é a presença do seu raciocínio sobre o material que você apresentou. Ela se manifesta em três lugares:

  1. Na tese, quando você escolhe uma causa entre várias possíveis
  2. Na análise, quando você diz o que o repertório prova
  3. Na proposta, quando você escolhe um agente e uma ação em vez de outros

Nenhum desses três exige pronome de primeira pessoa. Todos exigem decisão. É a decisão que o corretor identifica como autoria, não o "eu".

O que de fato derruba a competência 1

Vale relativizar a preocupação com o pronome. Comparada aos erros que realmente custam nessa competência, a escolha de pessoa verbal é secundária.

O que derruba mesmo é crase antes de verbo, vírgula separando sujeito de predicado, concordância com verbos impessoais, colocação pronominal e paralelismo quebrado. Um texto todo em terceira pessoa com três erros de crase pontua menos que um texto com dois "vivemos" e a gramática ajustada.

Se a competência 1 for o seu gargalo, o tempo rende muito mais estudando os erros mais frequentes de norma culta do que decidindo em qual pessoa escrever.

Perguntas frequentes

Posso usar "eu acho" na redação do ENEM?

Não há proibição formal, mas é desaconselhado. A construção transforma a afirmação em relato de impressão pessoal e enfraquece o argumento, além de destoar do registro formal esperado no texto dissertativo-argumentativo.

Posso usar "nós" e "vivemos"?

Pode. A primeira pessoa do plural é aceita no registro formal e aparece em redações nota 1000. O cuidado é com a dose e com a coerência: duas ou três ocorrências bastam, e não se deve oscilar entre plural e terceira pessoa sem motivo.

Escrever em terceira pessoa deixa o texto sem posicionamento?

Não. O posicionamento aparece na tese, na análise do repertório e na escolha da proposta de intervenção, não no pronome. Afirmar diretamente é mais assertivo do que anunciar que se trata de uma opinião.

Usar exemplo da minha vida pessoal pontua?

Experiência individual não é repertório sociocultural legitimado. Ela pode aparecer de passagem, mas um argumento construído sobre relato pessoal costuma pontuar mal na competência 2.

O caso do vocativo e do apelo direto

Uma variação da mesma dúvida: posso me dirigir ao leitor, escrevendo "você" ou "pense comigo"? Aqui a resposta é mais firme que no caso do "nós".

Interpelar o leitor pertence ao registro publicitário e ao texto de opinião informal, não ao dissertativo-argumentativo escolar. Além de destoar do registro, o apelo direto costuma vir no lugar de um argumento, o que prejudica também a competência 3.

O mesmo vale para a pergunta retórica usada como recurso de aproximação. Ela não é proibida, mas ocupa linha, não apresenta tese e raramente devolve o que custou.

Registro é uma parte pequena da competência 1

Crase, vírgula e concordância custam bem mais que pronome. O teste mostra se a competência 1 é mesmo o seu gargalo ou se o problema está em outra.

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