A introdução é o parágrafo mais curto da redação e o mais decisivo. É nele que o corretor descobre se você entendeu o tema e se tem o que defender. Escrita errada, ela compromete os outros três parágrafos antes mesmo de eles existirem.
A introdução precisa entregar duas coisas
Contextualização e tese. Só isso. Toda linha que não faz uma dessas duas coisas está ocupando espaço que faria falta adiante.
Ela não precisa apresentar os argumentos que virão, não precisa antecipar a proposta de intervenção e não precisa de frase de impacto. Em 4 a 6 linhas, situar e posicionar já é trabalho suficiente.
A contextualização
Contextualizar é dar ao leitor o pano de fundo do problema. Pode vir de um fato histórico, de um dispositivo legal, de uma obra, de um dado, de um conceito. O que importa é que seja verificável e que se conecte ao recorte do tema.
O que não funciona é a abertura genérica. "Desde os primórdios da humanidade", "vivemos em uma sociedade cada vez mais globalizada", "a tecnologia avança a passos largos" — nenhuma delas contextualiza coisa alguma. São frases que caberiam em qualquer tema, e é exatamente por isso que não valem como repertório na competência 2.
Teste da troca: se você pode trocar o tema da prova e a sua primeira frase continua fazendo sentido, ela não está contextualizando. Está enrolando.
A contextualização também é a primeira oportunidade de mostrar repertório legitimado. Uma menção à Constituição de 1988, a um dado do IBGE, a uma obra literária ou a um período histórico específico já sinaliza ao corretor, na linha 2, que você tem repertório. Só cuidado para não gastar quatro linhas nisso: o repertório mais desenvolvido pertence aos parágrafos do meio.
A tese
É a frase mais importante do texto. A tese diz o que você vai defender, e os dois desenvolvimentos existem para prová-la.
A confusão mais comum é entregar constatação no lugar de tese. Compare:
- Constatação: o trabalho precarizado cresceu no Brasil nos últimos anos.
- Tese: a omissão fiscalizatória do Estado é o principal motor da precarização do trabalho no Brasil.
A primeira descreve a realidade e não dá o que defender. A segunda aponta uma causa, assume um lado e organiza automaticamente os próximos dois parágrafos. Uma tese boa é aquela com a qual alguém poderia discordar.
Ela também precisa conter o recorte do tema. Se a proposta fala em "metrópoles brasileiras", a palavra Brasil ou metrópole tem que aparecer na sua tese. É a forma mais simples de blindar o texto contra tangenciamento.
Você distingue tese de constatação na hora da prova? Essa é uma das questões de competência 2 do teste, que devolve sua nota estimada nas cinco competências.
Ver minha nota estimadaTrês modelos que funcionam
1. Repertório e tese
Abre com uma referência externa pertinente, explica em uma linha como ela se relaciona com o tema e fecha com a tese. É o formato mais usado nas redações de nota alta porque já pontua na competência 2 logo de saída.
2. Contexto histórico e tese
Situa o problema no tempo, mostra que ele não é de agora e conclui apontando a causa que você vai defender. Funciona bem em temas sociais com raiz antiga, como desigualdade, acesso à saúde ou direitos de minorias.
3. Dado e tese
Abre com um número de fonte reconhecida, comenta o que ele revela e apresenta a tese. É o mais direto dos três, mas exige que você tenha o dado na memória com a fonte certa. Número inventado com fonte errada é pior do que nenhum número.
Erros que derrubam a introdução
- Pergunta retórica no lugar da tese. Perguntar não é posicionar-se. Se a introdução termina em interrogação, o corretor não sabe o que você defende.
- Anunciar a estrutura. "Neste texto será abordado, em um primeiro momento..." gasta linha e não acrescenta argumento.
- Copiar o tema literalmente. Repetir a frase da proposta como primeira linha não contextualiza; o corretor já sabe qual é o tema.
- Introdução longa demais. Passou de 6 linhas, você está tirando espaço do desenvolvimento, que é onde a competência 3 é avaliada.
- Tese ampla demais. "É preciso mudar essa realidade" não defende nada e deixa os desenvolvimentos sem alvo.
Um modelo para treinar
Monte a introdução em três frases, nesta ordem:
- Uma frase de repertório ou contexto, específica e verificável
- Uma frase ligando esse repertório ao recorte do tema
- Uma frase de tese, apontando a causa que você vai defender
Três frases, cerca de cinco linhas. Escreva dez introduções seguidas nesse formato, para dez temas diferentes, sem escrever o resto do texto. É o exercício de melhor retorno por minuto que existe na preparação de redação, porque treina justamente o que a maioria erra e leva menos de dez minutos por rodada.
Depois de dominar a introdução, siga para a estrutura completa da redação, que mostra como os quatro parágrafos se encaixam nas 30 linhas.
Uma introdução comentada
Vamos usar um recorte próximo ao tema de 2023, sobre a invisibilidade do trabalho de cuidado no Brasil. Ele não vai se repetir na prova, mas serve bem como exercício: o eixo volta, o enunciado não.
"A Constituição de 1988 reconhece o trabalho como direito social e fundamento da dignidade humana. Na prática, porém, o cuidado exercido dentro das casas brasileiras — de crianças, idosos e pessoas com deficiência — permanece fora dessa proteção, majoritariamente não remunerado e atribuído a mulheres. Essa invisibilidade jurídica do trabalho de cuidado é o que sustenta sua desvalorização no país."
São três frases. A primeira traz repertório legitimado, com fonte específica. A segunda liga esse repertório ao recorte do tema e já introduz o dado social relevante. A terceira é a tese: aponta uma causa nomeada, a invisibilidade jurídica, que os dois desenvolvimentos vão ter de sustentar.
Repare no que a introdução não faz. Não anuncia a estrutura do texto, não pergunta nada ao leitor, não adianta a proposta de intervenção e não usa nenhuma frase de efeito. Em cinco linhas ela cumpre o trabalho inteiro e libera o resto da folha para onde a nota realmente se decide.
Quanto tempo gastar nela
Entre cinco e sete minutos na folha definitiva, depois de o plano estar pronto. Se você está gastando quinze minutos na introdução, o problema quase nunca é de escrita: é que a tese ainda não foi decidida. Decida no rascunho e a introdução sai rápido.
Um sinal de alerta: se você reescreveu a primeira frase três vezes, pule a contextualização, escreva a tese primeiro e volte para a abertura depois. A ordem de escrita não precisa ser a ordem de leitura.
Temas com recorte duplo
Alguns temas do ENEM trazem dois elementos amarrados, do tipo "desafios para X diante de Y". Nesses casos a tese precisa contemplar os dois, e não apenas o mais fácil de argumentar.
Se a proposta fala em invisibilidade de um grupo específico no Brasil contemporâneo, tanto o grupo quanto o recorte de tempo e lugar precisam aparecer. Escolher só metade é o caminho mais rápido para o tangenciamento, que derruba a competência 2 e limita a 3.
A checagem leva dez segundos: sublinhe cada substantivo do tema na folha de questões e confira, um a um, se aparece na sua tese. Substantivo sublinhado que ficou de fora é ponto perdido esperando para acontecer.
Tese ou constatação: você sabe diferenciar?
É a distinção que decide a competência 2 e organiza o texto inteiro. O teste tem questões sobre isso e devolve sua nota estimada nas cinco competências.
Fazer o teste gratuito