Zerar a redação do ENEM não é questão de escrever mal. Um texto pode estar cheio de erros de gramática e ainda assim receber nota. O que zera são situações específicas, listadas oficialmente, e quase todas podem ser evitadas por quem conhece a lista.
A lista oficial
A cartilha do participante enumera as situações que levam a redação a nota zero. São elas:
- Fuga total ao tema proposto
- Não obedecer ao tipo textual dissertativo-argumentativo
- Texto com até 7 linhas manuscritas, contadas como texto insuficiente
- Cópia dos textos motivadores ou do caderno de questões, sem produção própria suficiente
- Folha de redação em branco
- Impropérios, desenhos ou outras formas propositais de anulação
- Parte do texto deliberadamente desconectada do tema
- Nome, assinatura, rubrica ou qualquer identificação no espaço do texto
- Texto escrito predominantemente em língua estrangeira
- Letra ilegível que impossibilite a leitura
Vale olhar cada uma das mais frequentes de perto, porque três delas pegam candidatos bem preparados.
Fuga ao tema não é a mesma coisa que tangenciamento
Esta é a distinção que mais confunde. Fuga total é escrever sobre outro assunto: o tema é trabalho infantil e o texto discute previdência. Isso zera tudo.
Tangenciamento é passar de raspão. O tema é trabalho infantil e o texto fala de educação em geral, sem nunca chegar ao recorte proposto. Isso não zera, mas derruba muito a competência 2 e limita a 3, porque os argumentos ficam sem alvo.
O recorte faz parte do tema. Se a proposta diz "nas metrópoles brasileiras", escrever sobre trânsito na Europa é desrespeitar o recorte. O texto continua valendo nota, mas nota baixa.
Teste rápido antes de começar a escrever: sublinhe as palavras do tema no caderno de questões e confira se todas elas aparecem, de algum jeito, na sua tese. Se sobrou palavra sublinhada, seu recorte está incompleto.
Fuga ao tipo textual
O ENEM pede texto dissertativo-argumentativo em prosa. Entregar poema, narrativa, carta ou diálogo zera, mesmo que o conteúdo esteja no tema.
O caso mais silencioso é o texto que vira exposição. O candidato apresenta o assunto, mostra os dois lados, não defende nada e conclui que é preciso refletir. Isso não é dissertativo-argumentativo: falta a tese defendida. Na prática costuma ser avaliado como domínio insuficiente do tipo textual, não como zero, mas é território perigoso e desnecessário.
Sabe reconhecer a diferença entre tese e constatação, ou entre tangenciamento e abordagem completa? São exatamente as questões do teste de competência 2.
Fazer o teste em 15 questõesTexto insuficiente: a regra das 7 linhas
Redação com até 7 linhas manuscritas recebe zero por insuficiência. Ou seja, o mínimo real é 8 linhas de produção própria.
Isso vale mesmo que as 7 linhas estejam impecáveis. E vale também para quem escreveu 25 linhas mas copiou 20 delas dos textos motivadores: a cópia é descontada e, se o que sobrar de produção própria não passar de 7 linhas, o resultado é zero.
Na prática ninguém deveria chegar perto disso. Detalhamos a conta em quantas linhas tem a redação do ENEM.
Cópia dos textos motivadores
Os textos motivadores existem para provocar reflexão, não para virar matéria-prima. Trechos copiados são desconsiderados na contagem de linhas.
O risco maior aqui é involuntário: o candidato lê os motivadores, memoriza uma expressão marcante e a reproduz sem perceber. Depois de ler a coletânea, feche o caderno e escreva a tese com as suas palavras antes de olhar de novo.
Direitos humanos zeram a competência 5, não a redação
Este ponto mudou e muita gente ainda repete a informação antiga. Proposta de intervenção que desrespeita os direitos humanos anula a competência 5, ou seja, custa 200 pontos. Não zera o texto inteiro.
Continua sendo o erro mais caro que existe em uma única linha. Propostas que suprimem direitos fundamentais, defendem punições desumanas ou excluem grupos entram nessa categoria, ainda que estejam bem escritas e com os cinco elementos presentes.
Identificação e letra ilegível
Assinar o texto, escrever o próprio nome ou colocar qualquer marca de identificação no espaço da redação zera. A correção é cega, e qualquer coisa que quebre isso invalida o texto.
Letra ilegível também zera, mas o critério é estrito: não é letra feia, é letra que impossibilita a leitura. Rasura não zera nada. Passe um traço simples sobre o erro e siga. Rabiscar com força, apagar até furar o papel ou usar corretivo é que cria problema.
O que não zera
- Erro de gramática, por mais grave que seja. Custa competência 1, não a redação.
- Rasura feita com um traço simples.
- Escrever menos de 30 linhas, desde que sejam mais de 7.
- Não usar nenhum dos textos motivadores.
- Discordar da posição sugerida pela coletânea.
- Rasurar uma palavra e reescrevê-la ao lado, desde que a leitura continue possível.
A leitura útil dessa lista é que o zero quase sempre vem de desatenção, não de despreparo. Quem sabe o que zera não zera.
Como se proteger de cada risco
Quase toda a lista se neutraliza com hábitos simples, todos executáveis nos primeiros minutos da prova:
| Risco | Como evitar |
|---|---|
| Fuga ao tema | Sublinhar as palavras do tema e conferir se todas aparecem na tese |
| Fuga ao tipo textual | Garantir que a introdução termina em tese, não em pergunta |
| Cópia dos motivadores | Fechar o caderno antes de escrever a tese |
| Texto insuficiente | Rascunhar o plano; ninguém com plano escreve 7 linhas |
| Identificação | Não assinar, não datar, não escrever nada nas margens |
| Letra ilegível | Treinar em folha de 30 linhas, no ritmo da prova |
E se você perceber o erro no meio da prova?
Depende de quanto já escreveu e de quanto tempo resta.
Se percebeu que fugiu do tema na linha 8, recomece. Vale o prejuízo: oito linhas perdidas custam menos que uma redação zerada. Se percebeu na linha 25, não dá para recomeçar, e a saída é usar a conclusão para puxar o texto de volta ao recorte, o que pelo menos evita a fuga total e transforma o caso em tangenciamento.
Se escreveu o nome sem querer, chame o fiscal. Existe procedimento previsto e é sempre melhor do que tentar apagar por conta própria, que costuma piorar a legibilidade.
E se a folha definitiva rasgar ou borrar, também chame o fiscal em vez de improvisar. A folha de redação é numerada e vinculada ao seu cartão-resposta.
Mitos que circulam sobre o zero
Boa parte do que se repete em grupo de estudo sobre nota zero está desatualizada ou nunca foi verdade. Os três mais comuns:
"Fugir do senso comum zera." Não zera. Argumento fraco custa competência 3, não a redação. O que zera é fugir do tema, que é outra coisa.
"Ferir os direitos humanos zera a redação." Zerava, até 2018. Hoje anula a competência 5, o que custa 200 pontos. Continua sendo o erro mais caro em uma única linha, mas o texto segue valendo nota nas outras quatro competências.
"Escrever menos de 30 linhas zera." Não. O piso é 8 linhas de produção própria. Abaixo de 25 a nota tende a cair por falta de desenvolvimento, mas isso é perda de pontos, não anulação.
Não zerar é o piso, não a meta
Evitar o zero resolve o pior cenário. O teste mostra onde você está perdendo os pontos do dia a dia, competência por competência.
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