Concordância é o segundo desvio mais frequente da competência 1 em redação, atrás só da crase. E, diferente dela, quase todos os casos que aparecem em texto dissertativo cabem em uma lista curta.
Verbal e nominal
Concordância verbal é o verbo se ajustando ao sujeito. Concordância nominal é o adjetivo, o artigo ou o pronome se ajustando ao substantivo.
Em redação, a verbal causa muito mais problema, porque o sujeito costuma ser longo e o candidato perde de vista com quem o verbo deveria concordar.
Verbos impessoais: o campeão de erros
Verbo impessoal não tem sujeito, então não concorda com nada e fica sempre na terceira pessoa do singular. Dois casos aparecem em quase toda redação.
Haver no sentido de existir ou de tempo decorrido: escreve-se "houve muitos casos", nunca "houveram muitos casos". Escreve-se "há dez anos", nunca "hão dez anos".
Fazer indicando tempo decorrido: "faz dez anos que o problema se agravou", nunca "fazem dez anos".
Cuidado com uma pegadinha: quando esses verbos vêm acompanhados de um auxiliar, o auxiliar também fica no singular. "Deve haver muitos casos", e não "devem haver".
O verbo existir não é impessoal e concorda normalmente: "existiram muitos casos" está correto. Se você tem dúvida com haver, troque por existir e ajuste o plural — resolve o problema e ainda varia o vocabulário.
Sujeito composto
Dois ou mais núcleos ligados por "e" pedem verbo no plural: "a escola e a família compartilham essa responsabilidade".
Quando o sujeito composto vem depois do verbo, é aceito o plural ou a concordância com o núcleo mais próximo, mas em redação vale sempre o plural: é a forma que nenhum corretor questiona.
"Um dos que"
Na estrutura "um dos que", o verbo concorda com o termo plural anterior: "esse é um dos fatores que mais contribuem para o problema".
A lógica é que quem contribui são os fatores, não apenas um deles. É um dos erros mais frequentes em textos bem escritos, justamente porque soa natural no singular.
Voz passiva sintética
Com o pronome "se" e verbo transitivo direto, o verbo concorda com o sujeito paciente: "criaram-se novas políticas públicas", e não "criou-se novas políticas públicas".
O truque é reescrever mentalmente na passiva analítica: novas políticas foram criadas. Se o plural aparece ali, o verbo vai para o plural.
Já com verbo transitivo indireto, o "se" é índice de indeterminação do sujeito e o verbo fica sempre no singular: "precisa-se de profissionais qualificados", nunca "precisam-se de".
Concordância é um item da competência 1. Antes de estudar gramática a fundo, vale conferir se ela é mesmo o seu ponto fraco entre as cinco.
Descobrir meu ponto fracoExpressões partitivas
"A maioria de", "grande parte de", "a maior parte de" seguidos de plural admitem verbo no singular ou no plural: "a maioria dos brasileiros desconhece" e "a maioria dos brasileiros desconhecem" são ambos defensáveis.
Em redação, prefira o singular, concordando com o núcleo "maioria". É a forma mais tradicional e a que nenhum corretor marca.
Porcentagens
O verbo concorda com o número, não com a expressão que vem depois: "30% dos estudantes abandonaram a escola", "1% da população detém a maior parte da renda".
Quando a porcentagem vem precedida de determinante, a concordância vai com ele: "os 30% restantes permanecem".
Concordância nominal: cinco casos que caem
- Meio: como advérbio é invariável. "A proposta ficou meio confusa", não "meia confusa".
- Bastante: varia como adjetivo ("bastantes motivos"), não varia como advérbio ("estavam bastante preocupados").
- Anexo: concorda com o substantivo. "Seguem anexas as tabelas".
- É proibido: invariável sem artigo ("é proibido entrada"), variável com artigo ("é proibida a entrada").
- Menos: invariável sempre. "Menos pessoas", nunca "menas pessoas".
O erro que não é de concordância, mas parece
Quando o sujeito é muito longo, o candidato às vezes acerta a concordância e erra a pontuação, colocando vírgula entre sujeito e verbo: "a falta de investimento em educação básica, compromete o futuro do país".
A vírgula ali é proibida. Se a frase pede uma pausa para respirar, o problema é o tamanho do sujeito, não a pontuação: quebre o período em dois.
Checklist de releitura
- "Haver" e "fazer" indicando existência ou tempo estão no singular
- Auxiliares desses verbos também estão no singular
- "Um dos que" está seguido de verbo no plural
- Verbos com "se" e objeto direto estão no plural quando o sujeito é plural
- Verbos com "se" e preposição estão no singular
- "Meio" como advérbio está invariável
- Nenhuma vírgula separa o sujeito do verbo
Sete itens, dois minutos de releitura. Cobrem a grande maioria dos desvios de concordância que aparecem em texto dissertativo de vestibular.
Sujeito distante do verbo
É a situação que produz a maior parte dos erros em redação, e não está em nenhuma lista de regras.
Quando o sujeito é longo, o candidato escreve várias palavras entre ele e o verbo, perde de vista o núcleo e concorda com a palavra mais próxima: "a ausência de políticas públicas voltadas aos jovens periféricos agravam o quadro". O núcleo é "ausência", singular, então o correto é "agrava".
O teste é isolar o núcleo. Corte todos os complementos e leia só o essencial: a ausência agrava. Fica óbvio.
Perguntas frequentes
É "houve" ou "houveram" muitos casos?
Houve. O verbo haver no sentido de existir é impessoal e fica sempre no singular, independentemente do que venha depois.
"A maioria dos brasileiros acredita" ou "acreditam"?
As duas formas são defensáveis, porque expressões partitivas admitem concordância com o núcleo ou com o termo plural. Em redação, prefira o singular, concordando com "maioria".
Concordância e clareza
Há um efeito colateral pouco comentado dos erros de concordância: além de custar competência 1, eles às vezes tornam a frase ambígua, e aí o prejuízo se estende.
Em "a ausência de políticas voltadas aos jovens agravam o problema", o plural sugere ao leitor que o sujeito são as políticas, não a ausência delas — o que inverte o sentido do argumento. O corretor entende, mas hesita, e hesitação nunca joga a favor.
Por isso vale tratar concordância como item de clareza, não só de gramática. Sujeito curto e verbo próximo resolvem a maior parte dos dois problemas de uma vez.
Antes de estudar gramática a fundo
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